José Carlos Morais: “Abandonámos as raízes da Feira como parolos envergonhados”

José Carlos Morais foi mais uma das personalidades de Alenquer que o Fundamental convidou para opinar sobre a Feira da Ascensão, concretamente acerca do espírito da Feira bem como do grafismo do respectivo cartaz de promoção do evento.

José Carlos Morais foi mais uma das personalidades de Alenquer que o Fundamental convidou para opinar sobre a Feira da Ascensão. O certame deste ano vai ter lugar entre os dias 9 e 13 de Maio, sendo que o Fundamental aproveitou a ocasião para auscultar posições acerca do espírito da Feira bem como do grafismo do respectivo cartaz de promoção do evento.

O docente José Carlos Morais é sobejamente conhecido no concelho de Alenquer e na região, tendo estado durante largos anos e num passado recente também ligado à política autárquica.

FNa tua opinião, o cartaz da Feira da Ascensão 2018 é apelativo e traduz o espírito deste certame?
José Carlos Morais
– O cartaz actual traduz a indefinição em que permanece, a meu ver por já demasiado tempo, a Feira da Ascensão de Alenquer. A reflexão necessária sobre a identidade da Feira nunca se fez. Pelo menos é o que parece quando o que temos é um mix de feira popular de carroceis, tasquinhas de colectividades e associações ao lado de roulottes de bifanas, mega exposição-venda de veículos ocupando o espaço central nobre, animação musical que compete com as festas de aldeia, mostra de actividades das autarquias e escolas, uma presença minúscula de pequeno comércio e artesanato e uma ausência total da grande actividade económica do concelho.

FSerá este modelo apelativo para chamar a Alenquer mais alguém para além daqueles seus munícipes que já se habituaram ao tradicional passeio por ocasião do fim de semana do feriado municipal?
José Carlos Morais
–  Se queremos uma feira que promova a actividade económica do concelho, é essencial que ela se foque nos seus pontos mais importantes. Talvez o vinho associado ao enoturismo ou a logística. Talvez as indústrias referência, premiadas pela sua inovação e qualidade. Mas conseguiremos fazer um certame que possa competir com outros que acontecem na Batalha ou em Santarém, por exemplo? E será isso que a população do concelho espera encontrar na Feira da Ascensão? Terão as colectividades, associações e empresas do concelho a dinâmica para proporcionar uma feira com a alma de outros tempos, em que se percorriam as ruas da vila parando em cada “barraquinha” para cumprimentar os amigos e conhecidos que divulgavam as suas actividades?

FSão algumas as questões que levantas. Qual é a resposta abrangente mais plausível para as mesmas, no teu ponto de vista?
José Carlos Morais
–  Estamos num tempo diferente, que exige que se tomem decisões sobre o que queremos que aconteça em Alenquer no seu feriado municipal e que honre o nome de Feira da Ascensão. E essa é uma reflexão e uma decisão que deve ser amplamente participada mas que não se pode arrastar.

FComparando a Feira actual com a Feira da década de 90, consideras que o certame continua a representar o interesse dos comerciantes, empresários e sociedade alenquerense?
José Carlos Morais
–  A questão é mesmo se os comerciantes, empresários e sociedade alenquerense estão interessados em serem o coração da feira. O espírito de mostra de actividade da década de 90 parece ter sido ocupado pelo da venda, ou das actividades que possibilitam angariar receita para os necessitados orçamentos anuais das associações. Já ninguém parece ter uma presença na feira para mostrar o que faz no seu concelho e angariar futuros clientes ou associados entre os visitantes. Tirando alguns resistentes colocados no pavilhão exterior, talvez só as autarquias e escolas não tenham algo para vender.

FA Ascensão deixou de ser a Feira destinada a promover as potencialidades comerciais e industriais de Alenquer?
José Carlos Morais
–  O pequeno comércio e indústria deixaram de investir num certame incaracterístico. Até o centro da animação musical do grande palco passou dos ranchos e bandas concelhias para os DJs e artistas populares de 3ª. Também aí parece que a modernização do tal espírito da Ascensão dos anos 90 ficou a meio do percurso. Deixámos as raízes como parolos envergonhados e quisemos ter um cartaz musical atractivo e moderno. Só depois percebemos que não tínhamos o financiamento necessário para dar o tal salto e ficámos ali numa espécie de limbo descaracterizado.

FQual será, então, o futuro da Feira?
José Carlos Morais
–  Continuará a ser aquilo que queremos fazer dela. Não podemos culpar apenas os organizadores, que muitas das vezes somente responderam (talvez da maneira mais fácil) áquilo que foi a evolução da sociedade alenquerense.

 

VIAAlexandre Silva
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