João Herminio sobre a Feira da Ascensão: “repetitiva e desajustada da realidade económica”

"Enquanto se mantiver a “visão” estratégica de um ex-presidente de Câmara para quem a Feira da Ascensão era para acabar... não há volta a dar". Foi desta forma que João Herminio deu o mote para um exercício de opinião esclarecido e crítico em relação ao certame de Alenquer, que se realiza entre os dias 9 e 13 de Maio. João Hermínio, recorde-se, foi vereador na autarquia alenquerense, tendo sido o responsável pela organização da Feira da Ascensão em 2010 e em 2011.

“Enquanto se mantiver a “visão” estratégica de um ex-presidente de Câmara para quem a Feira da Ascensão era para acabar… não há volta a dar”. Foi desta forma que João Herminio deu o mote para um exercício de opinião esclarecido e crítico em relação ao certame de Alenquer, que se realiza entre os dias 9 e 13 de Maio. João Hermínio, recorde-se, foi vereador na autarquia alenquerense, tendo sido o responsável pela organização da Feira da Ascensão em 2010 e em 2011.

FComecemos pelo aspecto gráfico do cartaz de promoção da Feira. O que lhe parece?
João Herminio – Ao cartaz falta-lhe, notoriamente, qualidade em termos gráficos e design. A menos que a ACICA não tenha solicitado tal colaboração, não entendo porque razão a Câmara Municipal, sendo parceira na organização evento, não disponibilizou os seus meios para produzir um cartaz moderno e apelativo. Afinal, a “marca” Feira da Ascensão, independentemente de quem circunstancialmente a organiza, está, e continuará, sempre indelevelmente ligada ao Município de Alenquer.

FConsidera que o Cartaz traduz o espírito do evento?
J.H. – O cartaz na actualidade traduz, não o espírito, mas antes o estado da Feira da Ascensão: um certame repetitivo, sem inovação  e, numa das suas vertentes – mostra económica – desajustado da realidade dos nossos dias.

FJoão Herminio foi vereador na Câmara e trabalhou com alguns dos elementos fundadores da Feira. Qual era o espírito que envolvia a realização deste certame?J.H. – O espírito que presidiu ao nascimento da Feira da Ascensão estava ancorado em dois aspectos fundamentais: Por um lado, constituir-se como uma mostra – e uma montra – do potencial da economia local e, por outro lado, aliar à vertente de mostra das actividades económicas do Município um amplo espaço de convívio, lazer e diversão, bem assim como de divulgação das potencialidades locais a nível social, cultural e desportivo.

FContinua a ver na actual Feira esse “ADN” que fez nascer o certame?
J.H. – O primeiro aspecto – mostra económica – foi-se perdendo com o tempo, não só por desinteresse dos empresários e comerciantes locais, mas sobretudo pelo facto do tecido empresarial do concelho se ter alterado significativamente. A realidade económica e empresarial dos anos 90 mudou, mas a Feira da Ascensão não acompanhou essa mudança.

FTemos actualmente uma Feira de costas viradas para o tecido empresarial do Concelho de Alenquer?
J.H. – Actualmente estão implantadas grandes empresas na área do Município, com escala nacional, para quem a Feira da Ascensão não lhes diz absolutamente nada, e temos poucas pequenas e médias empresas com dinamismo e capacidade de afirmação, pelo menos a uma escala regional, para as quais, essas sim, a Feira da Acensão constituiria um meio privilegiado para divulgar os seus produtos e serviços.

FÉ possivel que esta situação se altere e que a Feira da Ascensão volte a ser o que era?
J.H. – Para inverter este quadro é necessária capacidade de diferenciação, de inovação e, mais do que isso, é preciso não ter a ilusão de que num concelho com pouco mais de quarenta mil habitantes, é viável organizar uma feira de actividades económicas generalista, com dimensão sequer regional.

FO que faria o João Herminio, se de si dependesse a renovação do conceito da feira?
J.H. – Na minha modesta opinião, um dos contributos de inovação e adequação à realidade dos nossos dias, no que respeita ao rejuvenescimento da faceta de mostra económica da Feira da ascensão, será justamente a introdução de mostras económicas sectoriais na Feira da Ascensão, especialmente nos sectores mais dinâmicos das pequenas e médias empresas, por exemplo na vinha e no vinho, na panificação, na metalomecânica, nos serviços de catering e espaços para casamentos e eventos. As mostras sectoriais poderiam ter a virtualidade de complementarmente, nas áreas em questão, trazer ao município expositores de fora do concelho, dinamizando a vertente económica da Feira.

FA ACICA detém actualmente a exclusividade da organização da Feira da Ascensão. Concorda com este modelo?
J.H. – Por mais que a ACICA tudo faça para organizar bem o evento, o papel do Município não pode ser apenas o da ajuda logística e de alguns meios humanos. Enquanto assim for, a Feira da Acensão continuará o seu marasmo e a definhar. O Município tem de voltar ao seu insubstituível papel de organizador, eventualmente num modelo de organização conjunta ente o Município e a ACICA, com repartição de tarefas (A ACICA seria responsável pela organização da mostra das atividades económicas, e o Município pelas restantes atividades) com um investimento financeiro adequado à nobreza do evento e, sobretudo, com verdadeiro e genuíno empenho (e vontade política) para que a Feira da Ascensão possa voltar a ser um evento de referência a nível local e regional. Enquanto se mantiver a “visão” estratégica de um ex-presidente de Câmara para quem a Feira da Ascensão era para acabar… não há volta a dar.

 

VIAAlexandre Silva
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