Povo que lavas no rio: legislação e a caça à multa (Jorge Guilherme)

A propósito do Decreto-Lei que legisla a obrigatoriedade do uso de coleira ou peitoral e açaimo ou trela: questiono-me onde este rio de legislação nos levará! Continuamos a ver surgir novas leis, mas a sua aplicação é uma lacuna e a sensibilização dos cidadãos é omitida; onde a educação da sociedade fica só pelas ideias, surgindo assim apenas e só apenas a aplicação das multas.

A propósito do Decreto-Lei 314/03, Artigo 7º, que legisla a obrigatoriedade do uso de coleira ou peitoral e açaimo ou trela: questiono-me onde este rio de legislação nos levará! Continuamos a ver surgir novas leis, mas a sua aplicação é uma lacuna e a sensibilização dos cidadãos é omitida; onde a educação da sociedade fica só pelas ideias, surgindo assim apenas e só apenas a aplicação das multas.

Resultado: a eterna idade dos “porquês”. Deste povo de brandos costumes, que cada vez mais se guia pelas aparências, deixando a soldo os valores humanos da boa educação, do civismo e a valorosa humildade em vias de extinção. Povo este que, “por mares nunca antes navegados”, se deixa levar por falsos costumes, “embarcando” em “mares” já muito navegados e bastante conhecidos, e que a lado nenhum levam. Contudo, como estão na moda, “é remar, é remar, que a mau porto devemos chegar!”, e pronto cá vamos, “com a cabeça entre as orelhas”, impávidos e serenos, porque com o mal dos outros posso eu!

Mas ai Jesus se o mesmo mal me bate à porta; aí a conversa é outra. Rapidamente se procura o indiciado, porque o nosso mal é sempre causado por outros! Numa “vã glória!” busco na atitude dos outros desculpas das minhas acções. “A minha liberdade termina onde a dos outros começa”, e esta afirmação surge para relatar uma situação que aconteceu, de um contacto que tive com uma matilha comandada por uma fêmea Alfa, que os pobres dos canídeos foram obrigados a aceitar.

Estando eu com um grupo de amigos, mais os nossos canídeos, a efectuar um pequeno treino num espaço publico, onde o ser humano racional passeia os seus amigos de quatro patas, devidamente educados e orientados (trela), eis que surge uma matilha desorientada e descontrolada, onde um dos quatro patudos dirige-se a nós, tipo a “mandar vir” (ladrar) com um dos nossos canídeos que se encontrava a descansar, na sua paz do Senhor. De seguida surge a fêmea Alfa, única intérprete da linguagem de Camões (pensava eu), com duas trelas na mão (que também vieram passear), mas na sua boa competência de ser “racional” em nada agiu. Contudo, o elemento de quatro patas dessa matilha continuava muito activo, senhor da razão, a mandar vir com os seus congéneres, que coitados estavam ali mais os seus donos numa acção educativa.

Ao ver aquilo desloco-me à intérprete daquele grupo desorientado e peço-lhe encarecidamente que ao menos controle os restantes elementos da sua “quadrilha”. Resposta imediata da intérprete: “não se meta comigo!”. Eis que estava presente perante alguém “potencialmente perigoso”, e com calma (pois perante estas situações temos sempre que a manter) pedi-lhe que orientasse mais uma vez o grupo. Respondeu-me: ”os meus cães são livres de andarem soltos, e nada têm a ver com a má educação dos seus”.

Esta é a explicação: a senhora dirigia-se a uns cães que estavam à trela, educados, que em nada interferem com outros que constantemente passam naquele lugar; cães que, recordo, vão à trela. E aqui surge o sentido do conceito “a minha liberdade termina onde a dos outros começa, e a minha responsabilidade é o garante da minha existência”. E mais se impôs tal criatura.

Mas quando, num mundo sem regras, se tenta ganhar estatuto por causas ignorantemente perdidas, a nossa melhor causa é a da paciência pela razão do pensamento. Por vezes a diferença entre o olhar de um cão e o do dono está no olhar inteligente do canídeo.

A RAZÃO DO SER NÃO ESTÁ NAQUILO QUE SOU, MAS NO RESPEITO QUE TENHO PELOS OUTROS.

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