Alenquer: uma cheia de água e de lama recordada em tempos de seca extrema – Parte II

A 11 de Novembro o Fundamental recordava, com antecipação em relação à data que assinala a efeméride, as trágicas cheias de 1967. Hoje voltamos a falar do assunto, quando o fim de semana foi pródigo em iniciativas no contexto deste evento de há 30 anos. O trabalho continua a ser assinado pela direcção da ALAMBI - Associação para o Estudo e Defesa do Ambiente do Concelho de Alenquer

No passado dia 11 de Novembro o Fundamental recordava, com antecipação em relação à data que assinala a efeméride, as trágicas cheias de 25 de Novembro de 1967. Hoje voltamos a falar do assunto, numa altura em que o fim de semana foi naturalmente pródigo em iniciativas e noticias no contexto deste evento de há 30 anos. O trabalho continua a ser assinado pela direcção da ALAMBI – Associação para o Estudo e Defesa do Ambiente do Concelho de Alenquer

Dizia o n.º 2 do Solidariedade Estudantil, o boletim das associações de estudantes que se organizaram para prestar auxílio às populações sinistradas, baseado nos dados do Serviço de Meteorologia, que a pluviosidade máxima tinha ocorrido em Monte Estoril (158,7 mm), uma zona rica dos arredores da capital, e que aí os prejuízos foram menores do que noutras zonas com chuva menos intensa. Em Monte Estoril choveu 60 mm entre as 21 e as 22 horas, o que também é muito superior à precipitação máxima horária conhecida de qualquer outra estação udométrica.

Na verdade a catástrofe não se deveu apenas à intensidade da chuva. Factores humanos contribuíram para que a cheia atingisse proporções tão dramáticas. Os conceitos de ordenamento do território e de ordenamento urbano eram ainda teses académicas aplicadas sobretudo em zonas abastadas, como os bairros da capital, ou o Estoril. Mas Lisboa era por essa altura uma cidade em expansão, onde afluía população de todo o país, fugindo da pobreza que se viva nos campos, em busca de uma vida melhor. Muitos instalavam-se em habitações precárias, em bairros de lata, construídos onde houvesse espaço disponível. Nos arredores cresciam os Bairros da Urmeira, Olival Basto, Pombais, Quinta do Silvade, Odivelas, zonas inundáveis rodeadas de colinas.

Nos campos do Ribatejo, por seu lado, vivia-se perto do trabalho, como na aldeia de Quintas, cuja maior parte das habitações, de piso térreo, com paredes em adobe e telha vã, ficava na várzea; como no Casal do Góis, na margem esquerda da zona mais estreita da várzea Rio Grande da Pipa; ou na Quinta das Amendoeiras, junta a Cadafais, cujos trabalhadores mortos habitavam em casario da própria quinta, alguns em construções precárias que foram destruídas pela cheia. Os mortos vão ser sobretudo os habitantes dos bairros de lata de Lisboa e arredores, os camponeses das zonas rurais pobres, os que habitavam em casas construídos sem critério, nos leitos de cheia das ribeiras. A pobreza acentuou de forma dramática o efeito devastador da catástrofe natural.

Por outro lado, o documento surgido da análise das inundações realizada por Fernando Gomes da Silva, Gonçalo Ribeiros Teles e Nuno Portas, datado de abril de 1968, acrescenta como causa agravante a “degradação da paisagem rural da região de Lisboa (…), a destruição das matas e dos matos que ocupavam as área de maior declive (…) a destruição das sebes de compartimentação, que facilitou a erosão dos solos, acelerando o processo de empobrecimento dos terrenos e provocou o aumento dos carrejos transportados pela água das ribeiras e dos rios “. Nos campos do distrito de Lisboa, sobretudo nas zonas de montanha, praticava-se um modelo de agricultura desajustado ao declive dos terrenos. As zonas de mata eram diminutas. Os bosques primitivos de carvalhos que em tempos cobriram todo o território nacional foram derrubadas em séculos anteriores para construir caravelas e naus, primeiro, e para dormentes da linha férrea, depois.

A vinha era uma cultura muito valorizada e tendia a ocupar todos os pedaços de solo disponíveis, mesmo as encostas mais acentuadas; os pedaços de encosta que não eram ocupados por vinha, eram aproveitados para culturas de subsistência, num Portugal rural e pobre. As encostas das imediações de Alenquer, mesmo as encostas acentuadamente declivosas da Cruz do Bufo, estavam ocupadas por olival e vinha. As encostas das bacias hidrográficas, despidas de vegetação protectora, e sujeitas a cavas anuais, não tinham vegetação suficiente para criar um fundo húmico capaz de reter a água das grandes precipitações; as cavas anuais que revolvem a terra, e a escassez de vegetação, criaram as condições de erosão para os grandes arrastamentos de terra que se verificaram, e que nalgumas zonas de Alenquer chegam a ter um metro de altura.

É nestas condições que a Cheia de 1967 vai ser uma cheia rápida – com um curto período de concentração – uma cheia de água e de lama, um tipo de cheia que séculos atrás, com condições idênticas de pluviosidade, seria muito improvável que assumisse tamanha gravidade. É lícito questionar se, recuando 4 ou 5 séculos, quando a Península Ibérica era ainda um imenso bosque de carvalhos, nos rios correria água barrenta, mesmo no inverno, durante grandes chuvadas. Peniche, na Idade Média, era uma ilha, e a sua ligação ao continente apenas ocorreu quando as arroteias de campos para a agricultura e o abate dos bosques primitivos engrossou o caudal dos rios com vasa, que depois o mar depositou na costa. Foi depois de os rios começarem a transportar regularmente água barrenta no inverno que Peniche deixou de ser ilha e ficou ligada ao continente.

Quando os solos têm a protecção permanente das árvores e de arbustos, a folhagem em decomposição, cria um fundo húmico que absorve a água da chuva, envia-a para o subsolo, abastecendo os aquíferos, que a libertam aos poucos, ao longo do ano. Provavelmente o leito das ribeiras, nas zonas de cabeceira, nem estaria bem definido; as várzeas férteis, seriam pauis (Paúla é um topónimo de Alenquer) que enchiam durante o inverno com as chuvadas torrenciais, serviam de bacias de retenção naturais e libertavam a água aos pouco, exercendo um efeito regulador do caudal dos rios. As ribeiras raramente transportariam grandes cheias no inverno, e não chegariam a secar, mesmo durante o verão. Foi o abate dos bosques nativos, e a sua conversão em terrenos de cultivo, que criou as cheias rápidas e tingiu as águas dos rios com a cor da terra despida.

Actualmente, temos consciência que a acção humana está a transformar o ambiente, e que essa transformação não está a ter um efeito favorável. Mas a transformação do ambiente não começou no século XX. Se alguém que viveu no século XV, pudesse voltar no século XXI, não reconheceria o nosso território. O efeito devastador da cheia de 1967 foi também uma consequência do desmatamento provocado em séculos anteriores, sobretudo dos terrenos de encosta, e da extensão do cultivo a esses locais inadequados.

Actualmente, a mecanização agrícola torna impróprios os terrenos de maior declive; a desvalorização dos preços dos produtos agrícolas inviabiliza a produção em solos pobres, e a pequena agricultura, deixa de ser viável. As maiores encostas deixaram de ser cultivadas e recuperaram a sua vegetação nativa, o que tem um efeito favorável sobre a retenção de água durante as grandes chuvadas. Com as encostas cobertas de vegetação, o tempo necessário para a concentração de cheia, é mais demorado, a água é escoada durante um período de tempo mais longo, e a erosão é muito menor, ou mesmo inexistente. Com o abandono da agricultura nas encostas, as ribeiras já nem transportam água barrenta às primeiras chuvas.

A tragédia de 1967 não foi apenas fruto de um episódio raro de pluviosidade excepcionalmente elevada. A inexistência de princípios de ordenamento urbano, a pobreza, a destruição dos bosques primitivos levada a cabo durante séculos, e a inexistência de meios de alarme e alerta, contribuíram para que a catástrofe atingisse proporções tão dramáticas.

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