Alenquer em seca extrema assinala meio século de cheias catastróficas com centenas de mortos

Tal como o resto do país e até da Península Ibérica, Alenquer vive um momento de seca extrema. Mas há precisamente 50 anos esta região estava prestes a viver um momento dramático causado por chuvas torrenciais, que causaram centenas de mortos. O trabalho é da ALAMBI - Associação para o Estudo e Defesa do Ambiente do Concelho de Alenquer, e recorda esse fatídico ano de 1967.

Tal como o resto do país e até da Península Ibérica, Alenquer vive um momento de seca extrema. Mas há precisamente 50 anos esta região estava prestes a viver um momento dramático causado por chuvas torrenciais, que causaram centenas de mortos. O trabalho é da ALAMBI – Associação para o Estudo e Defesa do Ambiente do Concelho de Alenquer, e recorda esse fatídico ano de 1967.

Madrugada de 25 para 26 de Novembro de 1967. Chuvas torrenciais inundam a região de Lisboa, causam centenas de mortos e deixam um rasto de destruição. A chuva copiosa que caiu durante todo o dia 25 e saturou os solos era apenas o prenúncio do que ainda estava para vir. Pelas 19 horas a chuva intensificou-se e até há uma da manhã do dia 26 choveu torrencialmente. 77,5 mm em Lisboa, 129,7 mm em Monte Estoril, 115,3 em Loures, no curto período de seis horas. Em uma hora apenas, a chuva registada nalguns locais chegou aos 60 mm. A chuva que deveria cair ao longo de um mês de pluviosidade normal caiu no espaço de apenas algumas horas.

Há 50 anos o excesso de água matou centenas de pessoas na região de Alenquer. Actualmente vivem-se dias de seca extrema…

Nos afluentes do Tejo registou-se uma subida da água na ordem dos 3 a 4 m, nas zonas mais afectadas. A memória histórica das cheias, conservada na parede de uma construção na Rua Triana, em Alenquer, indica que naquele local o nível da inundação atingiu os três metros e 7 centímetros, mas num ofício dirigido ao presidente da câmara pelo veterinário responsável pelo matadouro municipal, este informa que naquele local a cheia ultrapassou os quatro metros. Aqui funciona actualmente a biblioteca municipal, porventura o local da vila onde a cheia terá atingido o nível mais elevado. Em muitas situações, a inundação chegou ao primeiro andar das casas.

Naquele tempo os meios de previsão meteorológica não tinham a capacidade actual, não existia um sistema de protecão civil, nem os meios de alarme e alerta eram comparáveis aos actuais. A hora tardia a que a chuva se intensificou apanhou a população de Alenquer já no repouso nocturno. Estavam criadas as condições para a ocorrência de uma catástrofe de grandes proporções, a maior provocada por causas climatéricas no século XX em Portugal.

Centenas de mortes na região de Alenquer/Carregado. Ainda hoje não se sabe com rigor quantas pessoas morreram. A contagem oficial terminou nas 462 vítimas, mas outras fontes referem que o número de mortos poderá ter chegado a 700. Quando o regime percebeu a dimensão da tragédia, procurou minimizar a sua extensão, para ocultar a precariedade em que se viva nos bairros suburbanos que circundavam Lisboa, e nas zonas rurais pobres. Os jornais, por sua vez, podem ter inflacionado o número de vítimas, fosse devido à pouca fiabilidade das fontes, fosse para antecipar os cortes que a censura iria impor, para que a desgraça parecesse menor.

No concelho de Alenquer foram registadas dezenas de mortos. No dia 28 de Novembro o Diário Popular contabilizava 62 mortos em Alenquer: 10 na vila, 29 em Cadafais, 15 no Casal do Góis (actualmente Casal de S. Silvestre), 7 em Refugidos, e 1 no Soupo. Na edição do dia 2 de Dezembro, o jornal A Verdade contabiliza 66 mortos no concelho de Alenquer.

Numa relação de vítimas elaborada pela Câmara Municipal, presumivelmente em fevereiro de 1968, e enviada ao Governo Civil, são contabilizadas 46 vítimas mortais em todo o concelho: 10 em Alenquer, duas na freguesia de Santana da Carnota, uma na freguesia de Meca, e 33 na freguesia de Cadafais – 11 em Cadafais, 5 na Quinta das Amendoeiras, 2 na Quinta da Carnota, 4 em Refugidos, 10 no Casal do Góis, e uma em Guizanderia. Nalguns casos desapareceram famílias inteiras. Casos houve em que os cadáveres foram arrastados pela cheia e encontrados a grande distância. Cadáveres de desaparecidos em Alenquer foram encontrados em Vila Nova da Rainha, e desaparecidos em Cadafais encontrados na Vala do Carregado. O Cadáver de uma bebé de 8 meses ainda não tinha sido encontrado à data do inventário elaborado pela Câmara Municipal. Esta relação, embora credível, pode no entanto não ser exacta. Em Alenquer sempre se falou de 11 vítimas, e fontes de Refugidos afirmam que ali morreram 5 pessoas, e não 4.

Mas se a catástrofe em Alenquer teve esta dimensão, do outro lado do Rio Grande da Pipa, já em Vila Franca de Xira, foi ainda pior. A Aldeia de Quintas, frente a Cadafais, quase desapareceu. 90 pessoas morreram; famílias alargadas ficaram reduzidas a menos de metade. A tragédia vivida em Quintas foi amplamente documentada pela imprensa da época, que a considerou a “aldeia mártir” desta catástrofe, mas alguns jornalistas que a reportaram confessavam a dificuldade em encontrar palavras para descrever aquilo que encontraram. Mesmo na imprensa internacional é possível encontrar imagens de Quintas. A revista LIFE publicou uma imagem de um cadáver a ser evacuado do largo desta aldeia, que se situa a 500 metros do curso do rio. Que o nível da cheia em Alenquer tenha atingido 3 a 4 metros, impressiona, mas se tivermos em conta que Alenquer é um vale apertado, percebemos que em situações de pluviosidade excepcionalmente elevada isso possa acontecer. Quando constatamos a existência de mortos a 500 metros do leito de um rio, num vale tão extenso como o do Rio Grande da Pipa, temos dificuldade em perceber que níveis diluvianos de pluviosidade podem ter provocado, com tanta rapidez, a elevação do nível da cheia, ao ponto de apanhar desprevenidas pessoas que moravam a uma tal distância do rio.

Na verdade, a bacia hidrográfica do Rio Grande da Pipa foi aquela em que se registou maior número de vítimas nas cheias de 1967: cerca de 140 mortos, se somarmos as vítimas de Quintas, Cadafais, Santana, e as do concelho de Arruda dos Vinhos, e não formos além das contagens oficiais. Devido a esta catástrofe, Alenquer e Vila Franca de Xira estão classificados entre os concelhos com maior número de mortos resultantes de acontecimentos hidrogeológicos no período 1900-2006.

Prejuízos extremos em Alenquer. Mas esta tragédia não provocou apenas vítimas mortais. Segundo informação encontrada no arquivo da biblioteca municipal, em Alenquer ficaram desalojadas pelo menos 54 famílias, estradas ficaram intransitáveis, pontes foram destruídas, o comércio e indústria sofreu enormes prejuízos. O inventário dos prejuízos à economia privada no concelho de Alenquer contabiliza perdas que totalizam 59.310 contos, o que, para a época, é uma quantia muito elevada.

Imagens da catástrofe mostram ruas com lama até 1 metro de altura, lojas esventradas e enlameadas, e automóveis arrastados pela cheia, alguns ainda no leito do rio. Nos celeiros localizados no bairro do Areal, mil toneladas de cereais terão sido destruídas. Diz a Revista Portuguesa de Geografia, FINISTERRA, que  por essa altura preparava um trabalho sobre Alenquer: “O moinho e a fábrica de papel tiveram suas partes térreas invadidas pela água até cerca de 1,50 m. As indústrias de lanifícios e de refrigerantes não escaparam à fúria das águas. A mais atingida, todavia, foi a fábrica de papel: teve parte da maquinaria e um dos seus pavilhões levados pela correnteza, porquanto estava construído sobre a ribeira. Pesadas máquinas, algumas com várias toneladas, foram arrastadas pelo caudal, como foi o caso de duas calandras, encontradas distantes da fábrica, uma delas próximo do Camarnal”. (pág. 41)

Umas destas calandras arrastadas pela cheia, ao passar pela ponte do largo Rainha Santa Isabel, terá embatido num dos apoios e derrubou-o, o que provocou o colapso da ponte. A ponte que ali existe actualmente foi construída em 1971. Outras pontes foram igualmente destruídas ou severamente danificadas, como a da Barnabé, Cadafais, Refugidos (na altura em obras), e Montegil. Infiltrações na cobertura da igreja do convento de S. Francisco deixaram os tectos quase em ruínas. A lista de obras para reparar os estragos sofridos, é longa, dispendiosa, refere locais distribuídos geograficamente por todo o concelho, e o período de execução prolonga-se durante alguns anos. A estrada do Camarnal, segundo documentação datada de Abril de 1969, ainda se encontrava interdita ao trânsito nesta data, “com um corte de 14 metros”.

Alenquer e o atraso do país da ditadura. A ata de uma reunião de trabalho com o Secretário de Estado das Obras Públicas, realizada em Alenquer a 11 de Abril de 1969, revela que o concelho tem 158,074 Km de vias municipais, e apenas 28,198 Km estavam alcatroados, tendo sido 17,045 Km alcatroados já em 1968, depois da cheias, o que é revelador do défice de infraestruturas, não apenas em Alenquer, mas em todo o país rural. Para além das estradas nacionais, praticamente não existiam outras estradas alcatroadas, e muitas das estradas que actualmente são municipais eram na altura meros caminhos vicinais. Pelas aldeias, no inverno, andava-se de pés na lama. Noutras passagens do texto é dito que existiam por electrificar 61 povoações com mais de 100 habitantes, seis das quais sedes de freguesia, e que apenas três povoações, para além da sede do concelho, tinham distribuição domiciliária de água. Portugal era um país rural e pobre; fora da capital vivia-se numa economia de precariedade austera; os recursos angariados pelo estado através da colecta de impostos eram gastos na guerra colonial; e o orçamento dos municípios dava para pouco mais do que para arranjar fontanários. Um pormenor pitoresco ilustra a escassez dos recursos municipais: a professora primária de Ribafria envia uma carta à Câmara Municipal a informar que mandou repor uma janela da escola, arrancada pelo temporal, acompanhada da respectiva factura. A Câmara Municipal responde que a professora não pode tomar essa iniciativa e diz-lhe que remeta a factura à Junta de Freguesia do Pereiro de Palhacana.

Depois da cheia, quando foi necessário limpar a lama das ruas e torná-las transitáveis, houve que recorrer à maquinaria e camiões das pedreiras que operavam na Carapinha, tal era a escassez dos meios próprios da Câmara. O Estado não tem meios. A tragédia foi enfrentada sobretudo através da solidariedade popular, de instituições caritativas e da intervenção dos estudantes do ensino superior, principalmente de Lisboa, e alguns da Faculdade de Medicina de Coimbra. Os estudantes que ajudam no socorro às populações sinistradas, vão ser perseguidos pelas polícias do regímen como agitadores.

Destaca-se o contributo solidário de emigrantes portugueses, em particular os de S. José da Califórnia, que enviaram 368 cheques nominativos para auxílio, através de “O Século”, 8 dos quais vieram para Alenquer. A Cruz Vermelha e empresas privadas ajudaram na reconstrução de casas, e sobretudo a Fundação Gulbenkian, faz diversas contribuições generosas para construção de moradias para os desalojados. Tem o nome de Bairro Gulbenkian a urbanização social construída em Paredes para realojar os desalojados das cheias.

o contributo das cheias para uma consciência social. As cheias de 1967 ajudaram a criar uma consciência social da pobreza em que se vivia, mesmo às portas de Lisboa, e da precariedade dos meios do Estado, incapaz de proteger e prestar auxílio às populações. Depois das cheias, Portugal deixava de ser um “cantinho” protegido pela providência, e descobria-se um país pobre e vulnerável. Enterrados os mortos e reparados os estragos, a tragédia viria a revelar-se também como um factor que contribuiu para abalar o regíme.

Com a influência de Francisco Gomes da Silva, Gonçalo Ribeiro Teles e Nuno Portas, que elaboram um importante estudo sobre as inundações na região de Lisboa, as urbanizações sociais para realojar os sinistrados das cheias são edificadas fora de leitos de cheia, conceito do ordenamento territorial que é adoptado pelo regíme. O Bairro Gulbenkian está numa zona elevada de Paredes, e o bairro construído em Quintas para realojar os sobreviventes está também numa cota acima do nível das cheias.

A tragédia de 1967 parece no entanto não ter perdurado na memória autárquica. Deposto o regíme e consagrada a liberdade revolucionária em 1974, restaurou-se também a liberdade de construir onde quer que fosse. Só com a introdução do conceito de Reserva Ecológica Nacional no ordenamento jurídico, em 1983, foram novamente introduzidas restrições à construção em leito de cheia. Entretanto, novas construções, ou urbanizações inteiras, tinham sido já edificadas, e novos direitos de construção tinham sido adquiridos. Alenquer é bem o exemplo disso.

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