Morrer vertical (opinião de António José Rodrigues)

Opinião de António José Rodrigues

Fotografia de António Gageiro

O texto que se segue foi inspirado na foto sobre pescadores da Nazaré, retirada de uma entrevista ao conceituado Eduardo Gageiro, publicada na Revista do Semanário Expresso em 22/7/2017.

O dito fotógrafo iniciou a sua actividade como amador, aos 12 anos de idade, com máquina de plástico, tendo passado a trabalhar para os jornais de referência da altura, tais como Vida Ribatejana, Diário Ilustrado, Século Ilustrado, etc.. Foi no início da década de setenta, com Marcelo Caetano à frente do governo.

Com a referida fotografia, da idosa da Nazaré, obteve mais de 300 prémios em diversos países, e 10 medalhas de ouro, em concursos internacionais de fotografia. Foi no consulado de Marcelo, sucessor de Salazar que um determinado dia, pelas 6h da manhã, foi surpreendido pela PIDE, que o levou para Rua António Maria Cardoso (sede da PIDE) e de dali para Caxias, por ter cometido o crime de fotografar uma velha a ganhar vida de forma honesta.

Num dos interrogatórios perguntaram-lhe “porque você não fotografa paisagens? Nós temos paisagens tão bonitas” ao que ele respondeu: “mas eu não gosto de fotografar paisagens; eu gosto de fotografar pessoas; os rostos das pessoas”. Perante esta aberração dos esbirros fascistas, foram os fotógrafos correspondentes de outros países que o ajudaram a sair da prisão.

No final da entrevista, foi-lhe perguntado como gostaria de ser recordado, ao que ele respondeu: “Um rapaz de Sacavém que procurou sempre denunciar as injustiças sociais e que vai morrer vertical”.

Os pides, bem como os governantes fascistas de então, bem gostariam de ter prendido Eduardo Gageiro como um criminoso UM GAJARENO (um fotógrafo de gajas nazarenas); mas ele preferiu ser preso como UMAZARENO (um fotógrafo da Mulher nazarena).

 

VIAAntónio José Rodrigues
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