“Câmara não pode pagar campo de futebol do Carregado sem contrapartidas para a população”

Mário Correia é o candidato do Bloco de Esquerda à Câmara de Alenquer. O professor de 64 anos é de Alhandra mas dá aulas em Alenquer há 16 anos, o que o leva a afirmar que conhece mais a realidade de Alenquer do que da sua própria terra de origem.

Mário Correia é o candidato do Bloco de Esquerda à presidência da Câmara Municipal de Alenquer. Nesta sua primeira grande entrevista, o professor de 64 anos afirma que o grau de escolaridade da população local ainda é reduzido o que, no seu entender, contribui para algum receio instalado de opinar e de intervir socialmente. Mário Correia é de Alhandra mas dá aulas em Alenquer há 16 anos, o que o leva a afirmar que conhece mais a realidade de Alenquer do que da sua própria terra de origem.

F – O que motiva um alhandrense a querer ser presidente da Câmara Municipal de Alenquer?
Mário Correia – Existem vários factores que me motivam, um dos quais, talvez o mais importante, o trabalhar aqui em Alenquer há muitos anos e por inerência ser aqui que conheço mais as pessoas. Dou aulas há muitos anos no ensino nocturno, lido com os adultos deste concelho e sei o que pensam do município, conheço o que gostavam de ter mas não têm, há um contacto directo na primeira pessoa.

“A água tem que fazer parte de um monopólio natural do Estado, e não aceitamos esta situação como irreversível. As pessoas não podem estar sujeitas a pagar a água ao preço que alguém quer”

F – As pessoas estão despertas para abordar os temas relacionados com a municipalidade?
Mário Correia – Nesse aspecto há um abismo muito grande. As pessoas têm ideia do município como uma coisa muito distante, e dizem que não há ligação entre eleitos e as necessidades que têm no dia-a-dia.

F – Há apenas essa distância? Ou também haverá medo de falar?
Mário Correia – De facto ainda há medo. A escolaridade básica neste município ainda é muito fraca e as pessoas têm muito medo, devido à falta de informação. Evitam expressar-se por medo ou vergonha quando têm consciência de não ter um grau de cultura elevado. E têm medo de represálias, porque a câmara e as IPSS’s são os grandes empregadores. Ainda há o medo da represália. Um ex-aluno meu é muito afecto ao Bloco de Esquerda, mas como trabalha numa organização controlada pela Câmara disse-me logo: “não me meto em nada porque não quero chatices com eles”.

F – Haverá uma base para esse medo? Ou será somente um problema na cabeça das pessoas?
Mário Correia – Há motivos objectivos mas também é um problema da cabeça das pessoas, devido à insegurança.

F – Diz que é possível reverter a concessão do serviço de águas em Alenquer.
Mário Correia – A água tem que fazer parte de um monopólio natural do Estado, e não aceitamos esta situação como irreversível. As pessoas não podem estar sujeitas a pagar a água ao preço que alguém quer. Somos um país de salários baixos, este concelho tem salários muito baixos e as pessoas pagam a água muito cara para os salários baixos que têm. Ainda por cima só há oferta de empregos e serviços no eixo Carregado-Alenquer, e depois começa a agricultura, com empregos sazonais e a pagar salários baixos. No concelho há nascentes de água e fontes e essa água está vedada para as pessoas terem de consumir da rede e pagar.

F – Ainda por cima os alenquerenses pagam a quarta água mais cara de Portugal.
Mário Correia – Não se justifica esse preço exorbitante, até porque damos a volta ao concelho e não vemos qualquer investimento no contexto deste serviço. Se não há investimento, se a água é aqui captada, qual é a razão para este custo?

F – Pelo que percebo, o senhor considera possível a reversão do contrato de concessão. Porque é que a Câmara não considera essa possibilidade? Haverá interesses ocultos da parte de quem governa a autarquia?
Mário Correia – Eu não quero acusar ninguém da câmara de algum interesse menos digno. Há aqui uma política liberal através da qual o Estado se desfaz das coisas, mesmo das mais importantes para as populações. Não quero acusar ninguém pessoalmente, mas que isto é tudo muito estranho, lá isto é.

F – Manifestou algumas dúvidas quanto à resolução do problema do campo da Associação Desportiva do Carregado, nomeadamente quanto aos custos que possam vir a recair sobre o município. Considera que a Câmara não deveria gastar esse dinheiro?
Mário Correia – Não me passava pela cabeça que houvesse um campo de futebol, com todo o investimento em benfeitorias inerente, edificado num terreno que não pertence ao clube e que não tem qualquer contrato de arrendamento. Um investimento feito em terreno de outros, sem salvaguardar coisa alguma. Este concelho não tem equipamentos desportivos, para além de uma piscina e de dois ou três campos sintéticos. Tenho medo que a Câmara de Alenquer se proponha ela própria pagar aquele terreno.

F – Mas não considera um gasto justificado, tendo em conta a importância da actividade desportiva que a ADC garante à comunidade?
Mário Correia – A questão é precisamente essa: qual é a contrapartida para a população desse investimento. Se é para suportar actividade desportiva para as crianças, para a formação, que tem largas centenas de praticantes, nesse caso justifica-se o investimento. Agora se é para gastarem dinheiro em futebol armado em profissional, que aquilo nem é profissional nem é nada, se é para gastarem o dinheiro à toa, então não se justifica que a autarquia invista tanto dinheiro do povo nessa situação.

F – Em 308 municípios de Portugal o Bloco de Esquerda apenas teve a autarquia de Salvaterra de Magos. Qual vai ser a receita para inverter essa tendência e ganhar a Câmara de Alenquer?
Mário Correia – A receita passa pelas pessoas perceberem que trazemos algo de diferente para o concelho, a nível social, económico e cultural. Não há desporto organizado, não há um projecto cultural organizado. Temos que levar as pessoas a uma escolaridade mais avançada, para os ordenados subirem, para melhorar a capacidade das pessoas de conhecerem a realidade que as rodeia, e temos que atrair mais investimento para o concelho. Comigo as pessoas podem ter a certeza de que estes aspectos vão melhorar no concelho de Alenquer.

  

VIANuno Cláudio
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2 COMENTÁRIOS

  1. Entrevista bem respondida, muito certinha e muito direitinha.
    Mas quando o candidato é confrontado com a questão da reversão da concessão do sistema de abastecimento de água e saneamento, toca de chutar para canto.
    Folgado, noutro registo, diz exactamente a mesma coisa: NIM.
    O que se impunha ao candidato do BE, era dizer com clareza:
    Primeiro: Caso seja eleito presidente avança, ou não, com o processo de reversão?
    Segundo: Em caso afirmativo à primeira questão, o Candidato do BE tem alguma noção e efectivo conhecimento de como se deve avançar com um processo desta natureza, acautelando sempre o interesse do Município?

  2. Realmente considero vergonhoso o preço que pagamos pela Agua neste Concelho, no meu caso especifico quando as águas eram responsabilidade da Câmara de Alenquer o máximo que cheguei a pagar foi 15,00€ assim que passou para a gestão privada (Aguas de Alenquer) o valor disparou actualmente chego a pagar cerca de 72,00€ mensalmente e o meu agregado não alterou (3 pessoas), como é possível?
    Nota: Fartei-me de reclamar para várias entidades incluindo a Câmara de Alenquer onde expus a situação ao ex-Presidente Jorge Riso e tudo se mantém. Tenho familiares que moram no Concelho vizinho (Vila Franca de Xira) numa moradia com jardim e pomar com respectivas regas e pagam mensalmente muito menos do que eu. Será que tenho de mudar de Concelho?

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