Fogos e mais fogos (opinião de António José Rodrigues)

Contudo, receio que os objetivos mais eficazes nunca cheguem a ser implementados, por força dos interesses instalados, desde as celuloses, os vendedores de equipamentos para combates a incêndios aos proprietários de aeronaves para combater incêndios.

Contudo, receio que os objetivos mais eficazes nunca cheguem a ser implementados, por força dos interesses instalados, desde as celuloses, os vendedores de equipamentos para combates a incêndios aos proprietários de aeronaves para combater incêndios.

Em Portugal, antes do século XIX, as explorações agrícolas eram geralmente pequenas. No norte, as terras eram constituídas por pequenas parcelas separadas. No sul, podiam ter grandes extensões, mas os proprietários davam-nas de arrendamento ou aforamento (arrendamento perpétuo), em parcelas. Em qualquer dos casos, a parte explorada era sempre muito pequena – uma clareira, no meio de imenso mato.

A cultura fazia-se em sistema de afolhamento: semeava-se o trigo numa folha (que é uma porção de terreno dum campo); no ano seguinte semeava-se de trigo outra folha, semeando-se a primeira de aveia, centeio ou cevada; esta folha ficava depois de pousio, deixando que o mato a invadisse, durante vários anos, sendo que o mato utilizava-se para fornecer lenha, para pasto ou para a cama do gado, para carvão, etc..

No final do século XIX, na medida em que a indústria se foi desenvolvendo, a agricultura foi definhando; já no século XX a indústria e os serviços foram absorvendo mais mão-de-obra, enquanto as populações iam migrando do interior para o litoral, abandonando a agricultura, deixando as terras de cultivo ao abandono, criando cada vez mais mato e floresta, o que começou a originar cada vez mais incêndios.

Em 1960, por exemplo, arderam cerca de 1.000 ha, em cerca de 50 ocorrências; em 1980 arderam 44.251 ha, em 2.349 ocorrências; em 2003 arderam 425.726 ha, em 26.219 ocorrências. Em termos de custo, só no ano de 2013 gastaram-se em despesas extraordinárias 14.085. 328 euros (Fonte: ICNF – Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas), em 2017 a desgraça parece ainda maior do que as anteriores.

Sei que o Conselho de Ministros está a estudar a “Reforma da Administração Florestal”, cujos termos ainda não conheço nos seus detalhes mais importantes, mas estou em crer que os objetivos de tal diploma ficam muito aquém de uma solução global e profunda para a resolução dos problemas florestais, em especial no que respeita á preservação da floresta.

Na verdade, os pequenos proprietários não têm rendimentos para limpar as matas, e não basta a apropriação pública de umas centenas de pequenas parcelas de terreno abandonado na zona do minifúndio, no Centro e Norte do país, onde ocorrem a maior quantidade dos incêndios e de área ardida. De nada serve a apropriação de pequenas parcelas isoladas de terreno, se as maiores propriedades ficam foram de prevenção, até mesmo as matas nacionais.

O caminho deve ser outro. Um maior investimento na prevenção, retirando do montante gasto em despesas extraordinárias (custo de meios aéreos e terrestres, etc.), para a reconversão da propriedade, como seja através do emparcelamento, previsto desde da década de 50 do século passado, o que nunca foi implementado.

Torna-se imperioso recuperar a ideia do emparcelamento de modo a tornar rentável a reconversão agrícola da zona do minifúndio, ordenando a área não rentável para a agricultura, para mais facilmente se fazer a limpeza a limpeza da floresta e das matas, utilizando depois as matérias-primas sólidas e combustíveis da limpeza de florestas, através de refinarias que possam preparar essas matérias combustíveis para utilização, mais que não seja no aquecimento de edifícios e mesmo em fertilizantes e combustível de máquinas e viaturas, o que só será rentável através de áreas consideráveis.

Contudo, receio que os objetivos mais eficazes nunca cheguem a ser implementados, por força dos interesses instalados, desde as celuloses, os vendedores de equipamentos para combates a incêndios aos proprietários de aeronaves para combater incêndios.

 

VIAAntónio José Rodrigues
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