O que é uma comunidade local?

Alenquer é uma população duradoura e organizada que integra um espaço de proximidade.

Desta vez os leitores não se deixaram apanhar: se o fim da história de Alenquer não é o fim de Alenquer, o fim da história de Portugal não significa que o país esteja perdido – pelo contrário, podemos regozijar-nos por viver numa democracia liberal capitalista. Todavia, este fim da história vem-se revelando desigual para as comunidades locais, o que nos levou a perguntar se elas podem ser descartadas. Afinal, tratamos aqui de Alenquer e Alenquer é uma comunidade local. Mais até, enquanto concelho, é um conjunto delas.

Todos sabemos o que é uma comunidade local, mas tentar estabelecer um conceito, por imperfeito que resulte, exercitará a nossa compreensão da natureza destas comunidades. Ganharemos, além disso, uma referência objectiva para tratarmos dos efeitos a que possam estar sujeitas.

Uma comunidade local é uma população humana duradoura e organizada que integra um espaço de proximidade. Tipicamente, os indivíduos que a constituem partilham múltiplos laços – são parentes, amigos ou simplesmente conhecidos; compram e vendem entre si, encontram-se nos mesmos lugares, têm referências comuns. A exemplo de um estado, a comunidade local integra população, governo e território. Já a sua durabilidade implica um elevado grau de auto-sustentabilidade – política, demográfica, económica, social, ambiental.

E, por sua vez, o que é um espaço de proximidade? Que extensão tem e o que define as suas fronteiras? Teremos aqui de aceitar alguma subjectividade, fundada nos hábitos e no sentimento de pertença dos habitantes, mas diremos que as barreiras e os favores da geografia natural, os aglomerados urbanos e as suas áreas de influência, o desenho das redes viárias e de transportes, a abrangência das actividades económicas e sociais e das heranças culturais e históricas se cruzam numa mancha difusa que corresponde a esse espaço. E que esse espaço é próximo porque é conhecido dos membros da comunidade e acessível aos seus hábitos quotidianos. A sua delimitação concreta é traçada pelas jurisdições político-administrativas, a que por sua vez correspondem órgãos de poder e serviços públicos.

Na prática, o nosso conceito identifica-se com a escala média de uma freguesia, como há várias no nosso concelho. Mas em todo o país elas encerram realidades tão díspares que, conforme os casos, podemos dizer que uma comunidade local é todo um concelho como uma só povoação – ou até uma fracção de uma cidade.

Mas o que são estas disparidades, quando pretendemos que o mesmo conceito possa designar comunidades pré-históricas e comunidades tecnológicas como as actuais? Haverá algum elemento comum às duas que, ademais, seja o essencial?

VIAFrederico Rogeiro
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